sexta-feira, 28 de abril de 2017

Abulia

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Diante da ebulição que sacode
e convulsiona o mundo,
sou o mesmo d'antes
que carrega razão empobrecida...
porque me confino
em minha embrutecida abulia...
consciente à anarquia, 
fugo do mundo
e sigo sitibundo
em minha infinita utopia...

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Desejo de sol


 
Quero muito o sol,
mas só me valerá à pena
se ele também brilhar em mim.

Não me apraz sacrifícios,
Nem tampouco artifícios...
se é pra esperar sei bem entender.

Nem sempre haverá arrebol,
mas sempre o amanhecer,
numa hora o sol se dará...

Natal de infelizes

 
Diante da pequenez do Cristo
que se expõe nas vitrines;
da mesa farta e profana
que alimenta a gula humana;
da roupa nova que encapa
o corpo da hipocrisia;
dos abraços induzidos
que não aquecem a alma;
do cálice embriagado
de assolações e de espantos;
dos votos de irmandade
que não ultrapassam dezembro
e dos olhos marejados
que não se ofuscam ao dinheiro,
um Natal feliz!

19 de dezembro (Fim de primavera)


Dia invernoso,
peito abafado,
choram saudades
sob o mormaço;
nuvens cinzentas
vão gerar lama,
inundar a alma
e apagar chamas.

Sê louco



Sê, de todo, louco.
Sê todos os loucos.
Alguns normais se suicidam,
outros, é normal, vivem pouco...

Viver é não só ser poeta,
não beber só devaneios;
não é contabilizar dias, 
meses, anos de vida;
é consumir, sem moderação,
cada minuto e segundo.

É consumar os prazeres
nas chamas da rebeldia;
é ser vontade e verdades;
não ser escravo, é ser mundo...

É impregnar-se de alma,
se embebedar de paixão
e entregar-se sem delongas...

Melhor ter a vida efêmera e intensa
a o não viver a vida longa.

Ser mundo



Aos seres pseudomorais
e que se julgam normais
é louco ser o que se é...

Há capas em quase tudo,
postura e coragem em poucos
que se desproveem de escudos
e se assumem como loucos...

Ao contrário dos normais
o louco é castiço, é íntegro, é todo;
se sobressai em rebuliços,
não se induz aos engodos,
não usa de feitios postiços,
nunca é nunca, nunca é quase...
Apresenta-se nu e sem medos,
mete a cara no mundo e se expõe à vida.

Pra defesa da sua lida
vai contra ou a favor do vento
Faz qualquer tempo o seu tempo
com coragem desmedida.

Se rende a qualquer paixão;
ri quando é pra sorrir
chora se é pra chorar
e chora por tanto rir...

Sem máscara, vive o real
num profundo surreal
e ainda lhe sobra tempo
pra ser mundo e ser feliz...

Vagueando




Entrego-me livre aos braços dos ventos;
singro pela vida flanando ao relento;
balouço nas ondas pelo mundo afora
preso à liberdade que em mim se ancora.

Leve, eu velejo pelos mares adentro;
só tendo a contento o crepúsculo e a aurora;
arfante, o meu peito, de amores sedento;
me faz ser maior que o mar que me devora.

Avante mais milhas me levem ao ermo;
embora sozinho e em boa companhia
em minhas cercanias eu encontro a mim mesmo.

E vagueando solto nas asas do tempo
desprezo a ampulheta a marcar minhas horas
e faço meu agora mais nobre e opulento.




Das cinzas



Meu amor é Fênix, renasce das cinzas,
das sobras, resquícios,
dos restos, dos mortos,
dos vícios de corpos
e de tudo aquilo em que ainda há paixão.

Ali ele resiste...
Nas sombras dos cios incuráveis,
latente em gozos insaciáveis,
em atos reversíveis, talvez recicláveis,
que aos olhos de seres de almas impermeáveis
mais parecem lixos...

E é mesmo assim...
Enquanto houver algo, ainda em mim, imbuído
desde que sanado o meu orgulho ferido,
meu amor volverá...
E devolverá tudo que foi retido.

Com força e vontade desfará o cansaço
e tudo que é prolixo
com a sede de um beijo,
com o calor de um abraço.






AP



Quandrângulo finito
dum mundo restrito
nem sempre esquadrado

Num quarto enquadrado
afora um infinito
passa quadro a quadro

Defronte do espelho,
o inatingível
olhar envidraçado.



Véspera do final


 
Não me iludo, 
 há fúria no tempo,
com a vida efêmera 
que traja torrentes.
Não cultuo nenhuma vaidade,
não ligo pra casca, 
mas sim pras sementes,
pois bem sei que o instante presente
infalivelmente 
precede o final.


Nada a dever



 
A melhor fase da vida é quando ela acontece;
é quando os sonhos já não são tão importantes
quanto as realizações.

Não me arrependo do ontem que vivi,
dos riscos, dos cortes, das provocações,
das desobediências pra ser quem eu sou;
das pedras atiradas aos dias que morri.

Não criei zinabre por faltas ou omissões...
Hoje tenho o ar — esse é o meu quinhão —
e do que eu não fiz respondo em liberdade.

E ainda devo, mas é a nada dever
e/ou muitas vezes ceder;
e/ou noutras me objetar,
dar ouvidos ao coração
e embargos dar à razão;

e devo não maquiar a vida
para que a minha mente não se torne enferma,
pois co'a alma sem saúde
mata-me, aos poucos, o físico
minando a minha consciência...

Ao voo indômito com tal insanidade,
é paradoxal essa rebeldia,
que se converte em razão
(e a esta é que não se castra);
conduz-me por caminhos estreitos;
desfaz n'alma todos os nós...

e aos pousos com sensatez
me trazem eficazes respostas
com a construção de verdades
e mesmo que hajam os trancos,
há o contentamento em ser.

E se há o regozijo em ser
é tudo que a mim importa;
ser humilde a polir o meu espelho
e a ser obediente à minha rebeldia,
ter minhas vontades como guia,
devendo nada dever...

domingo, 23 de abril de 2017

Comunhão da carne


Quem resiste aos dulçores do proibido
desconhece os fervores da paixão,
também inibe ternuras em efusão
e destina-se a amargores merecidos.

Traz no peito os desejos reprimidos;
seus preceitos não excetuam a razão;
se estrangula o que sente o coração
vai ao remorso do que não foi vivido.

Não há mal a um querer correspondido
se o querer resultar em satisfação;
na carne também se faz comunhão
com o sagrar da energia da libido.

O pecado quando é bem cometido
é anulado com o mútuo auto perdão.

Laço desfeito


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Rápida como um raio passaste por mim
mas não fugaz às minhas retinas.
Com zelo e sublimidade
te instalei em minha vida;
um amor nasceu como brisa,
depois viveu em tempestades
até findar-se em ruínas.

Sendo veraz eu lamento:
Não foi de fios caricatos
que bordei meus sentimentos
nem foi somente de azuis
que colori minha emoção.

Desbotado esse tempo
e um sol frio no final...
sobraram as palavras,
que mais que mal-interpretadas
nublaram teus pensamentos,
destituíram o respeito,
deformaram a razão,
anularam tua querença
com o laço que foi desfeito.

E em mim, ficou a solidão,
meu amor não se esvaziou
e foi esta a minha sentença.

Nada mais importa...
perdido o regaço, um aceno de adeus.
Pus-te em prisão em meus sonhos,
mas teus passos e teus braços
divergiram aos meus;
meu hoje ainda é tristonho,
minhas horas andam todas mortas
saudades tuas ainda batem à porta.

sábado, 22 de abril de 2017

Versos ao vento





Jogados ao vento
versos rabiscados,
escritos arcaicos
de verbos rasgados
que guardei pra ti...

não há mais segredos
pudores nem medos,
com a libertação
só há serenidade ...

quando te encontrarem
abertos estarão,
mas não te dirão
das dores ou saudades;

mas meu corpo sequioso
ao te reencontrar,
ao fremir em emoção,
falará por mim
minuciosidades.

Dezembro



Afora exale o silêncio
há, vivas, em minhas entranhas
palavras em turbilhões...

Embora esteja dezembro
e o mundo inteiro balance
estagno pro extrínseco...

sussurro ao mar pantomímico:

ainda há inverno em meu ser...


Esquecer-te é impossível



Apesar de todo o cinza frio
do clima de cores tão vazio
o teu colorido ainda incide em minhas cercanias...

Teu olhar esbanja beleza e brilho,
teu sorriso me injeta euforia
contagia e inflama o que existe dormido em meu coração...

Defendo o que o destino decide;
não desejo todos os teus sorrisos,
apenas aqueles que vertem em minha direção...

A esperança em meu peito reside
motivando mais o riso que o siso
eu deliro a inventar o paraíso, perdido, em minha ilusão...

A saudade é o meu grande castigo,
anoitece e amanhece comigo...
contigo distante meus dias são tristes e de escuridão

Esquecer-te assim é impossível
não consigo retomar meus trilhos;
à distância, incansável, te sigo  em minha solidão...

Por teus olhos




Olho-me por teus olhos
vejo-me de espírito parco,
fraco,
de todo imperfeito;

e no meu corpo esquálido
cheio de defeitos,
torto,
caricato...

do lado sombrio me vejo
num louco poeta,
triste e absorto...

de semblante amarelado,
de sorriso pálido
sem cor e sem gosto.

Mas também vejo em meu peito,
o raro
amor verdadeiro,
etéreo, intacto.


Bons dias



Embora doa a partida
e que a tristeza lhe corroa a alma,
esteja forte pra retomar seus dias,
pra retornar a sorrir
por compreender que a vida é ciclo,
que ela é de idas e de vindas,
que ela se renova...

Esteja forte e solto pra desmoronar,
pra chorar,
se desfazer em lágrimas
pra acalentar sua alma...
e pra suportar a dor
que não tem prazo de validade
porque o amor não finda...

Esteja feliz por sentir
a mais nobre dor;
por saber que não se sente esta dor
se não se sente o amor...
e que entre uma e outro
não há qualquer diferença,
que é o mesmo sentimento;
pois tudo que pesa à dor
é exatamente o amor;

Esteja feliz por sentir que muita gente lhe ama,
que esse amor se multiplica,
que as saudades não são só por ausências,
mas sim por algo ou alguém que ainda vive em nós;
que toda dor partilhada se chama também de amor.















Óbvios





Óbvio é nascer puro
pra fazer parte desse mundo imundo, tosco;
é viver duro, atravancado,
sempre em busca dum melhor conforto...
depois de tudo, ainda moribundo,
achar que tudo ainda é muito pouco...

Óbvio é estar na mão
quando se prende
e, aflito, cego, roga a um deus ínfimo, morto,
se enforcando, pelas cruzes e correntes
penduradas no pescoço...

São os desejos e pecados
vivos e não ditos, a lida...
de toda sorte é vida
mesmo quando a morte lhe interpela...
 não há o óbvio ou o ilógico
onde o improvável não atropela...

Desforra




Dissimulei o tapa,
permaneci no manto,
botei culpa no santo,
fingi comer tua papa...

Toei do mesmo canto
desvelei tua capa
depois sumi do mapa
pra não ouvir teu pranto...

Já não me importo tanto,
posso falar na lata
o quanto foste ingrata...
te deste ao desencanto.

Não temi tuas bravatas
nem pus-me no recanto;
te ferraste, porquanto
com a tua crueza inata.















Lucidez



Lembro-me de um lugar
que algum dia cheguei
e perdi a vontade de querer voltar...
era um lugar que eu nunca escolhi
mas que, de lá, me agradei...
Ali, muitas vezes voltei
pois era parte de mim...
era também o meu regaço.

Ali foi que pude viver e me deleitar,
me sentir ser razão,
ser o amor,
a mim retratar, e a curar minha dor...

porém eu jamais consegui,
por lá, permanecer,
pois o meu surto passou...


Natal branco



Quando é noite e me deparo
com as luzes disformes nas árvores e nas fachadas
vejo quão escuros estão os corações.
Não há nada que me apeteça...
O brilho frio das vitrines contrastam
com o fosco dos meus olhos
e os sorrisos que flutuam esbarram em minha tristeza.

Não gosto de receber o abraço daqueles que,
costumeiramente, não me abraçam,
mesmo que venham vestidos de comoção.
Fico indiferente...

Não quero a vaidade que me faz sentir a dor dos que nada tem,
nem quero a água nos olhos,
apenas pelos instantes exclusivos em que sinto
que a consciência me julga pelo meu egoísmo.

Quantos pratos estão vazios,
quantos são os abandonados e indigentes
com os quais nos deparamos no dia a dia
e fingimos que não os vemos?

Tivemos cinquenta e dois mil quinhentos e sessenta e nove minutos,
Três milhões, cento e cinquenta e quatro mil e cento e quarenta segundos
em trezentos e sessenta e cinco dias
e pouco ou nada fizemos pelo comum...

Todos os anos são assim,
difícil é não se entristecer.
Para não adoecer a minha alma,
recuso-me ao contágio de toda essa hipocrisia
e me recolho na tentativa de alcançar a luz
que, verdadeiramente, me faz refletir o que é o Natal.







(In)VictoR




Olhar sereno que exprime a candura;
inocência pura num sorriso ameno;
tão fartos e plenos gestos de ternura;
doçura que emana em simples acenos...

Na paz que irradia e eleva às alturas,
fulguram nos olhos nobres sentimentos;
Anjo que transforma toda dor em cura
e resgata a alma de um mar de tormentos.

Traduz a riqueza e bem-aventura;
o seu galardão tem por merecimento;
triunfa com glória em atos de bravura.

Por Deus enviado, divino instrumento;
um Ser iluminado, uma perfeita criatura;
prova de milagre figura o advento...



Precioso tempo



Dentro das circunstâncias
adversas ao abraço
descobri que não me satisfaz
apenas o rolar de corpos, o sexo,
mas a sua voz,
o seu olhar,
o seu toque e o seu cheiro...

Com tudo isso sinto-me inteiro;
o seu sorriso abre o meu sorriso...
tudo isso alimenta os meus sentidos
e me traz prazer.

Se fosse diferente não sentiria assim...
Amo estar em sua presença
e o tempo é um bem precioso,
cada minuto e segundo a mais com você
é menos tempo
para o tempo que falta pra gente se ver.

Vem menos saudades,
porém mais vontades,
mas tenho paciência
para esperar
ter você em mim.





Sobras de ontem



No ar, à fuligem do tédio sabatino,
as sobras das sombras de ontem...
Ando com o peito partido
ainda encharcado de lama.

As chuvas que antes caíram
foram insuficientes
pra lavarem a desventura
e rebrotaram em meu ser
traços sombrios do passado.

Não haverão mais mudanças
com a decrepitude dos sonhos
e a recessão já apagou
a força e a luz dos meus passos.

O que haverá no amanhã
sem a fuga do imaginário,
nos labirintos formados
com a morbidez por exaustão?




sexta-feira, 21 de abril de 2017

Anjos



Anjos existem
e para encontrá-los na terra
não necessita de preces,
tampouco de rituais...

Carece de andar descalço,
pisando o solo da humildade,
desnudo, respirando o bem
e enxergando seu igual...

Carece ser natural,
sensível às premências doutrem,
desprendido de vaidades,
ter abrigos no coração
e n'alma a avidez de abraços...

Anjos são células do bem,
são entes espirituais
que doam-se em emoções e vontades,
de Deus, são crias imortais...

Uma espécie de ser iluminado
que se multiplica
e reluz singularidade
e faz do amor a sua missão
nos ossos da humanidade...









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